Domingo, Dezembro 13, 2009

(30/10/08)

Ao som do silenciar do ventilador, o único envolto em seu próprio ritmo de desespero de movimento, às vésperas do sono suado, merecido. Os lençóis e edredons ocultam a maior parte de meu corpo, como que a relatar a inutilidade da matéria quando comparada ao sonho. Sobram-me expostos somente parte de minha cabeça, deitada, os cabelos postos para cima, como se também precisassem relaxar. Possuem um temperamento difícil, esses. Um humor frágil. São daqueles que necessitam de grande espaço para que não sejam machucados; se não tratados com delicadeza, tombam a chorar o resto da noite calados, e, ao acordar, as lágrimas secas lambem os fios tornando-os desmilingüidos, sem forma nem tom. Além deles, parte da orelha também fica desnuda, os olhos cerrados e, ao pousar o rosto no travesseiro de penas, a mente teima em continuar a pensar.
Às vezes, no mesmo cenário de tantas noites, embalo-me em imagens tortas, de maioria desconexas; são como fumacinhas que perambulam por aqui e por ali, se divertindo a passear pelos caminhos de minha mente cansada. Por outras vezes, essa neblina fina vagarosamente desaparece, revelando-me verdades do dia que se passou, visões angulares, opiniões, ansiedades, lembranças safadas que cismam em fazer visita justo nas piores horas. Nesses momentos, invade-me uma angústia descontrolada que me come os minutos, dias, anos, toda a noção de tempo. Mexo-me de um lado para outro tentando afastar os fantasmas que não saem de minha cabeça. A orelha, agora completamente exposta, é porta aberta para entrada de qualquer elemento disposto a comprometer meu sono. Um ruído, o piar dos grilos, o latir dos gatos, o vôo dos mosquitos, o tic tac do relógio analógico a me avisar da quantidade de sonhos cada segundo perdidos. Quando, enfim, minha movimentação é tamanha que nem mais os lençóis são capazes de me segurar, caindo pelos lados da cama, tomo consciência de que não conseguirei mais dormir.
É assim que o esquecimento momentâneo de Morfeu, de prazeroso, se transforma em fardo; convenço-me então que a repressão imposta pela obrigação do sono proporciona-me uma vontade incontrolável de rebelião. Viro-me de bruços, abro os olhos de sopetão como a demonstrar a mim mesma coragem diante de um mundo novo; de repente enxergo uma escuridão envolta em sombras. Aos poucos, os olhos começam a se acostumar à claridade peculiar e conseguem distinguir detalhes do quarto. Olho para o teto, meu único e fiel companheiro, e olhando para mim em resposta, inexpressivo, penso que ele me parece algum tipo de reflexo sem tom de meu próprio corpo. Nossos desejos por um instante se aproximam, eu a subir, ele a cair... e a devanear, sinto por um instante o frio do gesso pintado encostar de leve em meu nariz. Percebo essa sutil ironia que se faz entre minha procura pela elevação, pela leveza de minha alma, de meu corpo, de meus pecados pueris; e o intrínseco destino do teto, desabar. Eu a procura do vôo livre e, apesar disso, presa ao chão; ele, peso atraído sempre para baixo, sustentado no ar. Não há lugar para nós.


2:21 AM


Sexta-feira, Janeiro 09, 2009

O cheiro do perfume se modificou, ou será que foi minha própria pele?

12:53 AM


Terça-feira, Setembro 09, 2008

Folha branca. Comecemos.

Suspiro. Tão pesadas palavras dentro de mim que sinto medo de torná-las cor visível, sair de mim um veneno, um veneno da vida e do que me foi imposto por ela sem que ao menos me perguntasse o que sentia eu. Vida é dura, assim sempre aprendi, me conformei e chorei calada, quieta porque assim tinha que ser, não era assim? Vida dói, a gente sofre, e sofre tanto tanto e continua a viver porque tem medo de morrer, tem medo da morte e espera ao menos míninos momentos bons, momentos mais leves e puros do que a maioria dos dias que passam nebulosos e entediantes. Essa idéia estaria até mais gravada em mim do que qualquer tatuagem poderia estar, ou isso foi o que concretamente vi. Acreditei, criança. Minha mãe se tranca, meu pai chora, eu calo.


Não era nada daquilo. Nunca fui nada daquilo, dessa dor doída e tão profunda que existe e se deu não sei de onde, não tinha isso dentro de mim, era de outro, qualquer outro, menos de mim, criança, inofensiva. Culpa? Raiva? Pena? Tristeza? Sentia tanto, e tanto... Sentia por outros. Me inseri em cada personagem, encenei todos papéis de uma família torta, um amor decadente, e minha vida pueril ia esquecendo em frente à TV, meu remédio diário, meu cheetos, meu carinho.

Não quero isso para minha vida. Não quero ser assim, e não o sou. Graças. Vida Leve, vida boba. Doente quem disse que não se deveria viver de passagem. Idéia idiota, que se viva a vida como um passeio, um caminhozinho estreito que acabe num riachinho ou num canto qualquer bonito e até besta, não importa. Mas levinho, assim, seguindo o vento dos cabelos. Viver como poeira, sem porquê, sem tempo, só ir. Pode ser assim, não pode? Tem que ser. Negar para quê? Afundar-se na profundidade própria humana, é só carne, não percebe? Mente é uma ilusão, alma e toda não-matéria. Tudo uma grande besteira, e há de rir da própria fugacidade. Para quê, se nada vale? Dor e sofrer, sofrer e dor, Drummond estava certo. Dor, esta existe em todos. Sofrer é criação humana.

Serei e sou feliz. Desde já. Desde ontem, sem perceber, distraindo-me com tudo que é mais belo que palavras.


Isadora Barretto

10:10 PM


Quinta-feira, Agosto 28, 2008

Amor, dor, or or or. Tem mais som de cuspe.

Isadora.

4:02 PM


Sexta-feira, Junho 27, 2008

Metalinguagem e toda essa viadagem.

Esse negócio de ter um blog destinado à produções literárias é muito besta. Você vai lá, se acha inspirado, abre uma página do Word e começa a escrever um bando de non-senses achando que está abalando Bangu, transcrevendo a própria alma e aquela coisa toda, e no fundo tudo o que saiu não foi mais do que uma confusão absurda que nem você nem qualquer um entende, mas finge que é bonito. E claramente vai ser bonito, será uma obra prima, a coisa mais maravilhosa que você já fez em toda sua vida. É como ter um filho, como cagar. Você pode originar a coisa mais escabrosa e ainda assim considerar como um grande feito. O ser humano é mesmo um idiota. Aí você vai lá, salva aquela porra no computador pra poder ler repetidas vezes nos dias seguintes, incrédulo de que alguma coisa saiu dessa vida besta, e posta num blog qualquer, de nome obviamente ridículo. Recebe comentários fofinhos, pessoas pedindo mais, ó por favor escreva mais não vivo sem suas palavras purificadoras, ó não seja tarde demais!
Eu só imagino o bastardo pensando enquanto escreve “mas que puta que te pariu!”

Isadora.

10:35 PM


Sexta-feira, Junho 20, 2008

Desespero pré-vestibular

contexto: sexta-feira, noite. Prova da UERJ no domingo.

Luisa disse: cat. op/ hip
Luisa disse: é seno?
Isadora. disse: HAHAHAHA
Isadora. disse: é.
Luisa diz: uhauahaha tá rindo da desgraça?
Isadora. diz: Tô rindo do seu futuro.

8:39 PM


Sábado, Junho 07, 2008

Feliz ano velho

Hoje é meu aniversário, e nunca me senti tão sozinha na minha vida. Dezessete anos, e posso dizer que fui até feliz e agradeço por não ter tido momentos semelhantes ao de hoje. Pela primeira vez, senti como se estivessem comemorando algo pelo qual não faço parte, pelo qual me excluem, pelo qual pessoas que me congratulam se sentem mais felizes que eu, esta pessoa que aparece como imagem, mas não presença. E falam que hoje é meu dia, mas não vejo nada sendo realmente meu. Não participo dos risos, dos abraços, dos telefonemas e nem mesmo das conversas. Não tenho vontade de festejar, não me vejo feliz, não sinto nada a não ser uma solidão danada e um mundo girando sem mim.

Minha melhor amiga sequer me ligou, não vi um terço dos outros que por tanto tempo participaram ativamente do meu dia-a-dia e sempre estiveram lá para falar “estou contigo”. E senti falta. Acordei às 7 da manhã para um teste para o qual não dou a menor importância, passei horas ouvindo sobre uma prova para a qual não vou passar, ouvi histórias que não me pertenciam e ri do que não achava graça, só para constar. Tive um pedido de carona negado, um bolo murcho e sorriso forçado para a irmã não perceber. Uma família à espera de cinco minutos de velas apagadas, comida e fotografias de uma data sem cor. Uma mãe que me deu a luz e anoiteceu.

Sim, é verdade, ganhei um sorvete, presentes e gestos maravilhosos pelos quais agradeço de corpo e alma (se tive poucos momentos bons, foram por causa deles), mas devo dizer que não pude presenciá-los com a importância de que gostaria. Representei uma aniversariante sem certidão. Não nasci hoje, mas um pouco de mim morre.

Isadora B.
delete

10:35 PM


Quarta-feira, Abril 30, 2008

São nas horas mais difíceis que as palavras parecem mofadas demais pra qualquer caso. Parecem as mais imperfeitas criações, mesmo nos mais belos timbres - os mais baixos, os mais solenes. É o SOS da escrita: fogem as palavras e descabelam-se os verseiros de plantão. Enfim, toca-se a tuba: aqui jaz um poeta truncado.
Palavras. Sem piedade, queimam e pinicam e fazem cosquinhas pelos dedos nos quais brincam receosas. Rolam pelas mãos e pelos braços e cotovelos e esquiam pelas curvas, fugindo da possibilidade de transcreverem tanta amargura.
Fuçando como piolho, as procuro sem sucesso: atrás das orelhas, por entre fios de cabelo e dedos do pé. Por baixo da roupas, as mais safadas. Com a ponta da língua, tento alcançar vagarosamente as preguiçosas, que pela boca em vermelhidão, sedimentaram aconchegantes. Mas o temor as vence, e traçam o mesmo caminho das anteriores – para bem longe.
Quando chega a noite e os trovejos do escuro tomam conta das tristezas da gente, por cansaço e solidão, rolam as benditas molhadinhas pelas bochechas esbranquiçadas de azedume. Somos vencidos pelo inevitável, mas o inevitável consome as boas e velhas consoantes e vogais, que arrependidas, vagarosamente cantam em nossos ouvidos dos melhores textos. Assoviando alegria, em meio ao trovejar, uma nova trova começa a se desenhar.
Não há mofo que segure. No fim de um era uma vez, são elas nossas melhores amigas.

anna marzocchi.

8:04 PM


Segunda-feira, Abril 21, 2008

Diálogo desconexo

. E arquitetura, o que acha?
. Mudou de novo de idéia?
. Não... Não mudei de idéia. Acho que isso não é nem uma idéia, só um pensamento que me passou por alto, não importa... Deixa pra lá.
. Não, pode falar.
. Não é nad... É que... Não sei bem. Eu só fico pensando em como seria minha vida se eu fosse outra.
. Mas você não é outra.
. Eu sei! Eu sei que não sou. Mas... Eu não consigo. Não consigo aceitar o que sou. Não consigo me imaginar feliz. Nunca. Acho que nunca vou conseguir. Mesmo se buscar o que gosto, o que quero, mas eu nem sei direito o que quero... Não vou ser feliz. Às vezes fico criando personagens que consigam se encaixar no que acho que poderia ser melhor para mim. E as vejo rindo, bem de vida, bem sucedidas, com marido e filho e dinheiro e passeios aos sábados e dias perfeitos, e... Não sou eu ali. Não vou ser assim, feliz.
. E o que te impede de ser feliz?
. Eu... eu... Não sei. Acho que existem pessoas mais propensas à felicidade que outras. E talvez eu só não seja uma delas. Isso pode ser genético, ou de família, ou não sei. Não sei de muita coisa. Devo ser esse tipo de pessoa que não importa onde ou com quem esteja, nunca estará feliz. Nunca estará satisfeita, sempre precisará de algo mais que na verdade não existe, e não vai existir. Pessoas dotadas de vazios, essas pessoas que sabem.
. Que sabem?! Sabem do quê?
. (risos) Sabem, ué... Elas só sabem...
. Como ass...?
. Não dá pra explicar. É só algo que está além do corpo, além do racional. Essas pessoas sabem. E reconhecem uma às outras sem nem ao menos trocarem palavras, só com o olhar. Uma sociedade anônima, entende? Uma sociedade de sombras.
. Mas isso é tão pesado...
. Não é. A questão é justamente essa, não é. À principio parece pesado, e talvez venha a ser, mas esse peso de alguma forma vai se incorporando em cada um, até que já faz parte. Somos assim, não vamos mudar.
. Quer dizer que nunca vai ser feliz?
. Eu não sei. Tenho medo da resposta. Tenho medo, meu amigo... Medo de não ser feliz. Será que nunca vou ser feliz?
. Você quer ser feliz?




. É tudo que mais quero. Eu só quero... Só quero ser feliz... Só isso. Você acha que isso pode acontecer um dia? Acha mesmo, ou só fala da boca pra fora? Por favor, me diz o que acha, sem lenga-lenga, sem essa história de que tudo vai dar certo. Não vai eu sei que não. Não do jeito que falam, é tudo uma grande mentira, e já esperei tanto por esse “vai” que nunca vem... Por favor, diz para mim só a verdade, eu tenho que acreditar em algo, em alguém, pelo menos. Você entende?! Diga-me se ao menos a possibilidade existe, se algum dia encontrarei um objetivo nessa vida miserável, algo que me faça querer continuar. Por favor. Porque já estou tão cansada de procurar e não consigo achar nada em lugar nenhum, estou cansada, cansada, meu amigo, e não quero me acostumar a ser assim. Acostumar-se com a dor dói demais. Me dê um abraço. Diz que tudo ficará bem, diz. Não importa, eu só quero... só quero uma mão do meu lado.
. Sh... Sh... Vem aqui, vem, calma. Eu estou com aqui, aqui com você.


Isadora Tochtrop

12:03 AM


Terça-feira, Abril 15, 2008

Do tempo

Não tenho saudade de muita coisa, para falar a verdade. Não sou daquelas sedentas de nostalgia até as pálpebras, que procuram incansavelmente uma mínima oportunidade para relembrar algum passado bom. Algum momento mais prazeroso do que é a vida de hoje. Não tenho disso. Não sinto falta de minha infância nem de meu primeiro beijo, o que me marcou não desejo rever. Prefiro que fique assim pelo caminho, protegido em meu silêncio como um presente sem matéria, e se por acaso vier a mente, que apareça singelo como luz na ponta de meu olhar quando observo o mar, ou nas horas que reservo para balançar na rede da varanda, vendo o que restou do verde da cidade junto às nuvens em tons e nuances diversas, quando procuro esquecer um pouco as palavras, quando procuro não enlouquecer.
E ao ver ser engolido meu dia, infiltra-se aos poucos e devagar meu passado, e este, invasivo, faz-me perder tempo no que já se perdeu; árduo, tenta de algum modo me abalar; em vão. Das poucas memórias que me retornam conscientes, não são essas absolutamente exuberantes, não são cenas cinematográficas feitas em close e muita cor, nem capítulos de uma biografia bem escrita, nem lá grande coisa que as façam valer. Às vezes, o que me vem sem contexto é pedaço de um sorriso cortado, ou metade de dedo de alguma mão qualquer, alguns fios de cabelo rebelde que caem sobre a testa desconhecida. A maioria das lembranças em forma de fotografias em ocre, estáticas, um som de blues ou samba triste ao fundo, tão baixinho que quase não sou capaz de ouvir.
Seja como for, não tenho saudade de muita coisa, até porque não acredito que tenha sido mais feliz nos tempos de atrás. Não que fosse triste, mas parece que quem tem me acompanhado ao longo de tantos e jovens anos foi um sentimento sempre presente, constante, que me faz por vezes oscilar nas emoções, um sentimento misantropo responsável por essa minha vida de tamanha linearidade, tão retilínea, que mal ou bem me forneceu companhia, me deu conforto. E dela não sinto saudade, pois dela é que se faz minha própria natureza, e nela sei que, sem escolha, me perderei, lentamente, sem perceber o momento em que, saudosa, lembrarei vagamente de quando acreditava ter a noção de que, na verdade, não sentia lá saudade de muita coisa.


Isadora Barretto

12:17 AM


Sábado, Março 22, 2008

metáforas para aquilo que não sabemos explicar.

A vida parecia passar sem que eu pudesse participar dela; como se eu não pudesse tocá-la. É como se o espaço que eu tivesse vivendo fosse terra seca, e a vida fosse um graaaaande pedaço de água, bem definido, justo ao meu lado. Um pedaço de água intocável, como se um vidro nos separasse e eu pudesse ver a minha expressão angustiante refletida lá do outro lado, junto aos peixinhos, grandes baleias, tartarugas; verdadeiras representações de almas vívidas. E, a pouco, meti a mão nesse mundo molhado, e me embaralhei lá dentro, sem conseguir parar de girar,e girar e girar e girar, tipo numa dança desordenada, louca, agressiva. é frustante porque, no momento em que finalemnte consigo entrar, estou tão embaralhada nas bolhas formadas pelos meus giros que não consigo ver nada ao meu redor - e viver nada ao meu redor. Não sei o que é mais angustiante: estar do lado de fora sem conseguir entrar, ou estar do lado de dentro sem conseguir parar.


Anna Marzocchi

9:56 PM


Segunda-feira, Março 10, 2008

Com exceção do Som.

Chega uma hora na vida em que o subjetivismo já não lhe cabe. Nem amigos, nem choro, nem mesmo Clarice é capaz de expressar-te o que é merecido ouvir. A polissemia se torna mero estilo lingüístico, não mais magia literária. A sétima arte é perda de tempo, a maquiagem é perda de dinheiro, a fotografia não é mais do que documento, qualquer comida é sem gosto e insalubre. Aos poucos, os desejos viram sinônimo de ceticismo, os interesses se tornam racionais. Dormir passa de necessidade para opção viável de preenchimento nos “passions” do orkut. Não há pudor verbal, não há vontade social. Nada além de você e suas funções vitais importa mais, e são apenas estas seu divertimento e prazer maior. A catarse se esgota em informação e opinião. E tudo, tudo e todos os mais tornam-se desnessários.
Isadora Tochtrop

11:12 PM


Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008

Diga-me que há uma luz no fim do túnel. Diga-me que eu vou passar, que a dor e o medo vão passar, que tudo vai ser feliz como nunca imaginei, que verei flores e céus lindos pintados de azul-cristal pela manhã e a noite vai ser clara, sempre clara mesmo no pior breu, diga-me que tudo será de qualquer modo diferente dessa nuvem cinza e densa que sinto aproximar-se mais e mais rápido em minha direção até chocar-se nas retinas e arranhar-me em lágrimas de trovão.

Isadora Barretto

11:01 PM


Domingo, Fevereiro 24, 2008

"Deus é poder."
1984 - George Orwell


A cor do Mundo
Não é vermelha a cor de Satã,
mas amarelo-ouro.
Não é branca a cor de Deus,
Mas amarelo-ouro.

Já eu,
Eu sou feita de nuances.


Isadora Tochtrop

5:02 PM


Quarta-feira, Janeiro 30, 2008

Perdi a vontade de dizer, disse a ele. Não é porque não gosto de você, não entenda mal. É que há uma ponte entre minha voz e a palavra, tudo que digo não há mais importância no exato momento em que abro a boca, toda a polpa escapa por entre meus dentes e são automaticamente digeridos pela saliva. Não, você não está entendendo, meu bem, é uma metáfora. Veja bem, não há nem a necessidade de escová-los. Os dentes, digo. Eles já ficam limpos se não houver fala, é só manter a boca entreaberta e os olhos esbugalhados, como se o mundo me surpreendesse a cada momento ao olhar dos outros. A verdade é que só estou tentando manter minha sanidade. Sabe, é tão difícil ir para todos esses bares e praias e shoppings e festas de luzes fortes e som alto e nem ao menos conseguir conversar com todas essas pessoas felizes que aparecem desesperadas por companhia, controlar meus pensamentos é pedir demais... Aprendi a calar-me a voz, hoje apenas perdi a vontade de dizê-las. E, além do mais, nada que falo é realmente o que quero, as palavras saem de mim com vida própria, nunca me pertenceram. Falo sem pensar ao mesmo tempo em que penso sem conseguir transformar nada em palavra. Deixe-me quieta. Não, não, pare de falar, disse a ele. Não consigo ouvir nada e nem me importo. O que quero não está aqui nem no que eu ou você poderemos dizer um ao outro agora ou em qualquer dia de minha vida. Só diga que me ama e mais nada.

Isadora Barretto

8:12 PM


Sexta-feira, Dezembro 28, 2007

Chorar para não Rir

Cansei

De rir
Para não chorar
Vou chorar
Para não mais
rir
Do que nunca teve
graça alguma.



Isadora Barretto

9:21 PM


Quarta-feira, Dezembro 26, 2007

À Bruna Andrade. Um texto antigo que achei na parte podre de meu computador.

Passa os olhos como quem não quer nada, analisa minuciosamente pra ver se é agradável, se é doce o paladar ou se corta, se fere, mas passa os olhos, talvez os dedos por esse acúmulo de letras juntas que tentam toscamente expressar alguma coisa. E é você mesmo que lê, que vê, que chora; você! Não tente roubar o que penso, querido, não tente saber o que sinto só porque faço retalhos de palavras na folha branca. Essa folha não vai significar nem de perto o que tentei tirar de mim. Você, bastardo, você é crítico, é idealista, é carismático ou é um puto, você pode estar interessadíssimo ou bocejar a cada linha, e me doer até a alma por saber de minha mediocridade sórdida. É ruim, não é? De qualquer jeito é ruim. Você lendo alguma merda ou você lendo algo espetacular, vai ser sempre ruim. É um tapa na cara mesmo ler tanta bobagem e saber que essa bobagem veio de alguém vivente ao seu lado, no seu mundinho, o mesmo mundinho imbecil no qual Você vive. Te fere a esperança ou o orgulho, talvez porque não tenha sido você quem escreveu aquilo que quis dizer por tanto tempo, não foi você, meu caro... foi outro. Foi outro que conseguiu achar no próprio vômito um pouco de voz, não você. Você é tão igual às palavras dos outros que até se assusta, não é mesmo? Você não é o único, você não é original... Já veio um, ou vieram vários para escrever aquilo que você sentiu, pensou, gaguejou, fodeu. E Você pode fazer de tudo, queimar, rasgar, pisar, deletar, o que quiser. Estará sempre ali, com você, a prova de que você não é especial. Você é só mais um no meio de tantos outros papéis em branco e preto.

Isadora Barretto

5:45 AM


Sábado, Dezembro 15, 2007

Vinte Dias Desde a Última Folha Caída dos Agostos Esquecidos.

Foi assim de repente, ninguém soube ao certo dizer o porquê, o como, o quando, o quem, o nós. Incógnita ainda não decifrada (e talvez dúvida eterna, já que o que foge da razão é sempre mistério), eis talvez um único exemplo de algo que nasceu por nascer, simplesmente e puro, sem transformação, sem passado presente futuro, sem reação, sem fim. Existia. Existia, somente, e isso era a verdade, intocável, atemporal, imaterial, ser por somente ser. Não havia, na época sem tempo, a Necessidade nem a Regra. O Haver não significava muito, pois nada, na realidade das coisas não-tocáveis, havia de ser de ninguém, era o que era, sem posse nem poder, era nada. E, sem som, sem ressonância ou ruído, não diziam nem significavam coisa alguma em suas próprias existências. Um leque de possibilidades que se abria e se abria e se abria sem conhecer o limite, até que os olhos imaginários já não fossem capazes de acompanhar. O lugar era o infinito, e o infinito éramos nós. E, ironicamente, não éramos nada. Só permanecíamos, por algum motivo sem motivo, inclinados a estar ali, inconstantemente, avulsos na loucura de não ser e existir, não viver e sentir, em algum momento-movimento onde o mundo não significa mundo (mas se torna mudo, sem rumo), o abstrato se corrói em paredes sem cor definida, o que se vê é exatamente aquilo que se vê (não mais), a fotografia fotografa a inoperância e a escuridão engole traços e brilhos, gritos, o chão vira água translúcida, lúcida quando se pisa, lambendo as folhas secas caídas nos verões cinzas e sem calor; onde o amarelo tem gosto de pé e as frutas crescem da raiz. Foi nesse mundo que lhe encontrei.
Encontrei-lhe assim, fraco, sem cor, gasto pela inutilidade de não servir nem utilizar, você frio, nulo, pulsando devagar, quase sem forças para ser aquilo que nunca existiu naquele mundo irracional e fantástico, você. Encontrei-lhe transparente, como eu própria me encontrava, submerso na distância entre o começo e o fim, escondido no fundo das sobras do que me faltava, bem ali, onde o tudo era o nada e o nada se fazia personagem principal. E você, a princípio, não percebeu a presença crua do que lhe também faltava, seu objeto de interesse e estudo, sua face, ponte de passagem, ferramenta para o que até mesmo você, dono de todos os significados, não conhecia. E todos os sopros e tentativas e fatos e fracassos, estes sem importância, passados em brancos, ardiam a cada passo não dado, queimavam por dentro, doíam sem aparecer em pele, mas ardiam, ardiam com a vontade de se soltar, mas o grito não ecoava, nem sequer saía das bocas não utilizadas. E eu, quieta, ao seu lado, esperando o tempo que não existia, virava aos poucos algo finalmente concreto, te absorvendo lentamente... Num instante de repente, sem porque ou como ou quando ou quem, sua dor ardeu tanto em mim que explodiu, explodiu forte sem barreiras o que antes só lhe implodia silenciosamente. Gritei-lhe o mundo! Gritei sem medo a dor dos mudos, a cegueira dos surdos, gritei para fora, para o avesso meu, mergulhada em lava num desespero por vida.
E eu, que só existia, nasci. Nasci e lhe fiz ser. Nos juntamos em uma coisa só, onde não havia um sem o outro. Eu lhe dava a voz, e você me dava alma, e assim nos completávamos expressando todo o velho que já conhecíamos (e desconhecíamos) num meio nunca antes imaginado naquele lugar sem fronteiras sem regras sem necessidades sem limites sem ser só existir. Oferecemos a nós mesmos a real infinitude do infinito, verdadeiras possibilidades à possibilidade, e caretas às nossas caras antes amargas, e verdades aos enganados e mentiras aos malandros e memória aos bem-lembrados e recordações aos nostálgicos e máquinas aos escritores e caneta aos estudantes com sede de conhecimento e som para os músicos e tinta aos artistas de primeira viagem e chance aos tantos personagens que criamos de nossos “eus” para, brincando, nos reinventar. Nos colorir. Do tato, olfato, paladar, visão e audição, falamos arte, pintamos frases, e do boom de sentimentos que fez-me gritar de meus pulmões a vida, gritou-me em resposta o mundo, mundo do qual já não era só mundo, mas Terra Lua Sol Estrela Mar e tudo que fosse belo pros olhares bobos de apaixonada e rendida. E com sua pele já não mais fria, embrulhou-me num abraço, não de braços, mas de almas, fazendo de mim enfim minha, e de você, amor.

Isadora Tochtrop

3º Lugar no Concurso Literário do meu colégio não-literário. Grande merda.

7:51 PM


Sexta-feira, Novembro 23, 2007

Entrando no espírito natalino...

Estava fazendo hora com minha mãe para vermos "Leões e Cordeiros" (que aliás, aconselho a todos os inconformados com pessoas que pagam semanalmente R$8,50 para assistirem a lixos audiovisuais a la "superbad") quando aparece-nos a frente a figura de Papai Noel em estátua de plástico. Classicamente vestido de vermelho e com o braço direito levantado para cima, minha mãe me vem com sua genialidade:
- Parece ele saudando Heil Hitler.
Partimos daí para uma discussão ideológica. É bem verdade que metade das figuras de Papai Noel se encontram com o braço direito levantado em forma de saudação ao Führer (vide Google), e que a transformação de São Nicolau em figura natalina aconteceu na Alemanha. Mas se considerarmos Papai Noel um símbolo nazista, este deveria estar vestindo verde (um look mais militar), não vermelho. Com essa cor, fica mais do que óbvio que o querido velhinho nada mais é do que um comunista, mas isso não faria o menor sentido, pois o natal é o auge de todo final de mais um ano capitalista-americano, não é mesmo, rapazes?!
Pois digo que não. Eis a verdadeira história do natal, escondida do povo por séculos e considerada por muitos material subversivo:

Bem no início das eras, quando nenhum de nós ainda era nascido, Papai Noel morava na Lapônia e tinha um grande amigo chamado Vladimir. Ele (Papai Noel, digo) sempre usou verde, tinha uma pequena loja de brinquedos e seu verdadeiro nome era Joulupukki¹. JouJou foi bastante influenciado pelos ideais político-econômicos de Vladimir e, como manifestação de sua admiração e apoio, trocou todas suas velhas roupas verdes por vermelhas e entrou para o Movimento Operário Laponiano (MOL). Com o tempo, conseguiu verba para a construção de sua primeira indústria de brinquedos, onde forneceu emprego principalmente para diversos operariados portadores de nanismo, ajudando-os na luta contra o preconceito.
Sua lealdade para com Vladimir era tamanha que foi capaz de deixar a fábrica tão batalhada nas mãos de sua mulher e partir para Rússia, com o objetivo de ajudar seu amigo a vencer a revolução ocorrente no país, adotando o nome de guerra S prazdnikom Rozdestva Hristova. Após a morte de seu camarada, Joulupukki voltou a sua terra natal e continuou seu trabalho em prol do trabalhador, doando todo ano seus brinquedos às crianças carentes laponianas.
Com a derrota do socialismo, foi perseguido diversas vezes, e vendo sua mulher ser ameaçada, exilou-se na antiga Alemanha oriental com o falso nome Nikolaus, sendo rapidamente descoberto pelo serviço secreto americano. Encurralado, foi obrigado a vender sua fábrica de brinquedos a multinacionais norte-americanas e sua imagem passou a ser manipulada em benefício capitalista. De bom velhinho protetor-dos-trabalhadores-e-carentes, uma manobra publicitária de investimento americano fez com que seu rosto e vestimenta passassem a transmitir ideais de consumo, e seus brinquedos passaram a ser comprados em vez de doados. A própria Coca-cola responsabilizou-se pela destruição do símbolo comunista presente nas roupas vermelhas de Joujou, e, numa grande jogada de marketing, passou a associá-las à própria cor da marca, transformando-o em um dos maiores símbolos capitalistas da história, embora contra sua voltade.



¹que mais tarde influenciou no nome da famosa loja de materiais escolares JouJou, cujo símbolo é um simpático homem gordinho.



(Depois de chocante história, é de se pensar duas vezes antes de alguém (eu) defensor da sociedade se inscrever em publicidade no vestibular...)

Isadora Barretto

7:25 PM


Domingo, Novembro 04, 2007

Saindo da Puc...
No calor abafado sentada ao alto de um ônibus em direção à Cidade do criador, favela de Deus, o cinza do túnel (que não Rebouças) me trouxe aos olhos um lapso visual de algo extraordinário, algo voador. Antes que pudesse pensar na loucura ao avistar na velocidade escura um ser Vivo, do outro lado olhava-me meu cúmplice (personagem semi-figurante, seu olhar mais marcante que a própria importância na cena): percebi que alucinação já não era, o voar se encontrava perto de nós. Como nas escritas de meu querido Caio Fernando, imaginei coloridas borboletas saindo de meus cabelos embolados pelo vento quente de fora. Borboleta marrom, ou talvez mariposa, cria obscura (combinando com minha alma densa e quase marginal, mas ainda assim de certa beleza incerta). Fugiu por entre meus fios negros e se foi perdida na liberdade do mundo. Perdi-a, pisquei por menos de segundo e não se achava em lugar algum, minha mariposa marrom...
Olhei novamente para a janela, a paisagem poluída e morta de túnel, procurando aquele ser saído de minhas entranhas, ou talvez um pouco da pessoa escondida por dentro de minha pele naquilo que não era paisagem nem beleza, só massa de fumaça e vento. De fora ninguém me via. Já sem importância era a borboleta que se infiltrava em minha veia, se escondeu em mim, pensei por lógica; voltou sem cor alguma.
Olhei para dentro, perto da minha mão estava não borboleta, mas barata, barata marrom. Não gritei, estava perto demais, quase dentro. A mariposa entrara para além de mim e saíra dura e marginal. Aquela barata era eu, bem ao lado de minha mão (que quase se movimentava como onda no ar se não fosse a submissão de ser somente parte do corpo) sobre a janela semi-aberta. O cúmplice percebeu minha inquietação, sentei-me do outro lado. Como se fugisse de mim mesma, a barata também assim o fez, saindo da estaticidade da suposta parede para o chão em prata barata. Meu cúmplice foi rápido, usou a graxa de seus sapatos de trabalhador bem-arrumado para pisar na carcaça. Crec, fez o barulho de minha morte. Dura, rápida, virou-se de barriga para cima, as patas desengonçadas. Virei-me de novo para a janela, procurando minha própria paisagem inventada, lembrando-me do bom e velho Kafka que não li.

Isadora Tochtrop

10:17 PM


Quarta-feira, Outubro 10, 2007

eu tenho um cachorro. eu tenho um cachorro, e mesmo assim fica martelando na minha cabeça essa idéia essa vontade de ter um gato. não contente em ter um um cachorro, eu quero mais.
eu tinha uma gata chamada petita. ela não era exatamente minha, eu nasci e ela sempre esteve lá. ela era mais da minha mãe, se é que bicho pode ser posse de alguém. certa vez, já era de se esperar, a gata morreu de morte morrida. tinha chegado da escola com minha mochilinha, lá estava um saco preto, todos sérios. foi a primeira vez que me deparei com amorte. não sabia o que fazer. enterraram petit ano quintal, ao lado da mangueira.
os anos se passaram sem bichos (além daqueles com encéfalos altamente desenvolvidos) em casa. até qe um dia, eis que aparece-me em minha casa (plim) um cachorrinho bebê saltitante. me apaixonei desde o primeiro momento. era ele. ele era meu. no início tive medo, mas acriatura era tão doce, tão pequeninca, tão pura que me rendi. o cachorrinho veio pra casa, e assim ficou. por um dia. botei nome na gracinha, compramos ração, dei água de beber, brinquei, afaguei, estava mais feliz que nunca. no dia seguinte a vizinha interfonou dizendo que era dela. filha da mãe! aquela put anunca o amaria como eu, nunca! ela o estava tirando de meus braços de mãe, estava me tirando aquele filho que tanto carinho dei, aquela escrotinha. fiquei arrasada.
minha mãe começou a ficar preocupada com minha tristeza, minha melancolia e falta de sentido na vida e decidiu comprar um cachorro. mas não bastava, nunca bastaria, eu queria O cachorro, aquela belezinha, meu filho tirado de mim, eu queria ELE, e nenhum outro mais. o que achavam? que iriam conseguir que o esquecesse por outro? que eram capaz que substituir meu filhote por outro qualquer? nunca iriam prencher aquele vazio que aumentava em minha alma pueril.
compraram o bicho. um shitsu, 3 meses, uma pechincha, pedigree, quase dado. eu gostei. Era fofinho, tudo e tal. Nunca foi a mesma coisa, mas fiquei feliz. Minha mãe colocou o nome, Tutty.
Tutty gostou obviamente mais de minha mãe. Ficava sempre mais com minha mãe. Acabei me desvencilhando do tirano. Ele não era meu como Meu cachorrinho. Aos poucos cansei de Tutty.
Hoje eu e Tutty parecemos estranhos um par ao outro. Olho para ele e sinto culpa. Sinto culpa por te-lo amado tão pouco, por ter lhe dado pouco carinho, por ter deixado levar até aquele ponto onde não tinha intimidado com meu próprio animal de estimação. Não me sentia nem sinto proximidade para afaga-lo nem amá-lo. E sinto culpa... fico pensando se seria igual com Meu cachorro da vizinha, e tenho medo da resposta, tão fria que sou.
Certa vez, esse ano, assim como o cãozinho, apareceu um gato na porta de minha casa. Sabia que era o gato da vizinha, mas não me importei. Afaguei-o, ele ronronou. Me apaixonei de imediato. Sabia que ele não poderia ser meu, não me importei; ele ronronava de um jeito tão fofo, parecia estar gostando tanto... Gostei de estar ali com ele só por sua carinha de prazer. Dei-lhe o nome de Peixe.
Toda semana Peixe aparece aqui em casa. Por vezes tento dar-lhe carinho, mas o querido não quer, foge, se mete no mato a fim de caçar ratos ou não sei o quê. Fico imaginando o que faz enquanto perambula pelo condomínio, imagino se à noite Peixe volta para casa e é acariciado pela vizinha. Sinto ciúmes, mas aceito.
E ele sempre vêm par Amim quando preciso. Outro dia voltei para casa andando, bêbada, estava ele lá. Não resisti. Sentei-me no chão ao lado do portão de casa, ele se aconchegou nas minhas pernas. Ronronando. Estava noite, deite-me sobre o chão frio, o calorzinho de bicho vivo me esquentando. Estava uma noite estrelada, bonita. Vi estrelas rodando, rodando, peixe ao meu colo. Àquela noite fui feliz.

Isadora Tochtrop

10:21 PM


Quarta-feira, Setembro 19, 2007

Inversos

para Outro

Não gosto de verso.
Não gosto do gosto de verso.
Diria que é como café amargo
mas do café eu tomo, ardo.

Não gosto do seu verso
com som de pianinho ao fundo.
Gosto é das entrelinhas da poesia besta
que rodeia a rouquidão do imundo.

Não gosto da suposição métrica
no seu diálogo calculado.
Não diga que não vejo suas estrias,
Pois quanto mais as vejo,
Mais as desejo.

Não gosto da calma lúcida.
Se és metade monstro, metade gente,
Me tenho canibal,
Devorando a própria mente,
Deixando transparecer só ossos.
(ocos ossos meus!)

Não gosto da propriedade.
mas não derrubo a parede dura.
Derrotar, derrotar o quê, afinal?
Derrotar-me-ei sem novidade,
Quando encontrar minha própria rachadura.
(que não sua)

Não gosto dos justos, dos certos, dos mudos.
Se tenho rancor,
É de não ser eu a conhecer seus buracos
E embarcar em minha própria dança
Sem par de valsa, cantando na desesperança.


(E se és o Outro, querido...
em algum lugar eu sou
e sempre fui
o Inverso dos seus versos.)

I. Tochtrop

8:22 PM


Terça-feira, Setembro 11, 2007

eu sempre quis ser a melhor. quis que tivessem orgulho de mim, quis me diferenciar, que batessem no meu ombro que e dizessem "é, é ESSA aí.". sempre quis escrever um livro, e escrever melhor do que escrevo. já quis fugir de casa, quebrar todos os vidros e janelas, quis mudar de quarto, pintar as paredes, quis a chave de casa. já quis cortar meu cabelo até não sobrar nenhum fio sequer. já pensei em pular pela janela, mas me dei conta que isso não iria adiantar nada: a altura era pouca para morrer. já quis chorar sem conseguir, e já dormi chorando, exausta. sempre quis ser mais magra, ser magra, ser bonita, às vezes até acredito que seja. tudo mentira. mas ter mais peito, isso é uma coisa que nunca quis... tenho esses desejos escrotos de vomitar toda comida que como, de não comer nada. nunca consegui, nunca tentei. hora e meia tenho vontade de matar minha mãe, mas sei que ia me matar junto, que nem tragédia grega. já quis beijar mulher, já quis me beijar pra saber como era. sempre quis saber como é ser outra pessoa, como é ter a sensação de ter um pau, e principalmente como é ficar de pau duro. tenho essa idéia de tirar fotos com os próprios olhos, piscando. já quis ter respostas pra todas as perguntas, hoje não mais. queria ler mais, entender de filosofia, de história, de música, de arte, de mim... ser menos preguiçosa, menos gulosa, menos prepotente. já quis amores perfeitos, bonitos, sensíveis; hoje os quero possíveis. sempre quis ser A melhor, mas hoje procuro simplesmente ser... melhor.
mas acho que nunca quis não querer nada. isso soaria como a morte pra mim.

Isadora Barretto

10:26 PM


Quarta-feira, Agosto 15, 2007


águas turvas
... até que um dia veio alguém e me disse:
-Enfrenta!
E tudo ficou claro como água. Peguei a pistola, encaixei bem na garganta onde tudo entra e tudo sai, e.


Isadora Barretto


9:29 PM



pensamentos soltos de umazinha qualquer.

São vontades que se alimentam com o olhar e se satisfazem observando, só observando, eu sem nem ao menos abrir a boca para falar a grosseria de pensamentos cortantes (só merda, e da boa!) que minha cabeça inventa e grita, inconsciente, e eu, consciência, oculto do mundo externo para manter um mínimo de respeito por aqueles que talvez nem mereçam. Comentários imediatos sacanas e geniais (no duro), aquele bando de podriça estragada que por muito entalada em espaço, fazendo só superlotar o armazém já sujo, sujo pra caralho suportando o maldito resto, todo resto que sustenta a ponta de meu iceberg. Aliás, um parêntese em memória a todos os icebergs, icebergs agora que descongelam aos poucos com a porra do tal aquecimento global, um fervilhamento mundial pro caos que já estava rondando por aqui desde a criação (agradeça a Deus, amém) do homem, e todo mundo já não se conhece como um caos retraído, e o medo da casinha de areia cair com a tormenta de chuva que está já para acontecer? Cuidado com o cabelo escovado, minha filha, que daqui a pouco cai temporal e sobe essa sua cabeleira alisada a ferro!

Chego a ter ânsias insuportáveis de foder logo com tudo, começar a fumar, qualquer coisa do gênero, e olha até que acho cigarro uma coisa bonita. Morte esfumaçada, consome a vida a cada baforada, tragada forte. Suspira fundo, retém aquele princípio de nada bem dentro do vazio dos peitos, bem ao lado do coração-pedra, tentando preencher o que quer que seja naquele buraco de rato sem dono só deixando o cheiro, cheiro cru, cheiro da porcaria que é ser, realidade. E ao final de circuito, linda que sai é nuvem cinza, desenhando todo o podre do corpo jogado fora, e lá se vai mais um suspiro de desespero retido expelido liberando vício pra atmosfera doente. É bonito, se pensar; morte silenciosa. Quem fuma quer morrer rápido e faz isso devagar. Devagar...

E eu quero é fumar. Eu quero é beber meu fígado aguado e chorar meus rins. Quero foder milhoes, queimar dólar, meter fogo aceso do meu próprio pitéu na macmerda onde ontem comi um protótipo de hambúrguer vegetariano fingindo ter um mínimo de saúde. Hipócrita. Já estou estragada junto com minhas vontades. Se muito, suspiro fingindo controle, fingindo relaxar no cheiro de tabaco queimado que não sinto, mas minha mente clama. Observo as bundas das mulheres do ônibus lotado só pra ver qual é melhor que a minha. E no caso de haver alguma, me acabo na academia puxando mais ferro do que posso, para depois das horas duras e suadas, comer um churros metadechocolatemetadedocedeleiteporfavor na esquina, rebolando meus belíssimos glúteos pela passarela, passarela de gente feia e pobre, pensando em ómeudeuscomotemgentefeiaepobre!. Pra depois do banho passar cremes anti-celulite que custam mais caro que o salário mensal do vendedor de churros, feio, pobre e cheio de celulite. E mesmo assim as tenho, as danadas das celulites (cremes da porra!), e as odeio por me jogarem bem na cara a imperfeição, o monte de merda junta misturada em tecido adiposo. E mesmo assim saio com minha saia mais curta e gozo com os comentários sacanas dos punheteiros de plantão nas ruas da cidade verde e cinza e rio chamando-os de ómasseuspervetidos. Eu sou um nojo. Sou um nojo e sei disso.

Isadora Barretto


8:40 PM


Segunda-feira, Julho 16, 2007

Te espero lá no final da esquina da sua estrada com a minha, mais pra sua do que pra minha, na hora que quiser, desde que seja rápido e que dure o tempo que precisar, a eternidade não escolhe hora. Te espero aqui, no início final da minha rua sem rumo, em frente àquela cabine desativada abandonada apodrecida, lembra? aquela coberta por de musgo em cima no telhado já sem cor de telhado, sem cor de nada, cor de dor, com um papelzinho amarelado grudado na tal janela empoeirada, janela de vidro fumê já metade quebrada, provavelmente algum moleque jogando pedrinhas pra ver se tinha alguém naquele lugar trancado pelo vazio. E talvez possamos descobrir o segredo daquele pedacinho sem graça, desvendar o dom de sobreviver a tanto estrago, tanto tempo e dinheiro, e pó e solidão, e talvez possamos ler o que eu sempre quis entender daquele pequeno pedaço de papel sujo, tudo escrito e esquecido no cubículo sem vida e sempre ali. Poderíamos, se você quisesse. Se você quiser.
Mas mesmo sem resposta imediata, assim te espero, debaixo da escada fria, lendo o livro que me emprestou e que trato como se fosse você, por mais que não tenha seu cheiro seu gosto seu pranto seu canto você. Apesar de não trazer o olhar que me toca me choca me fecha os olhos pra enxergar, as mãos que me adormecem devagar me esquentam me arrebentam de mim me fazem dois quatro mil um só. Te espero lá, aqui comigo, eu contigo, somente nós , o eu-você, o você-eu; pois a verdade é que já não me vejo em mim, e não me encontro sem você. Devo ter me perdido em algum bolso seu, achada e perdida.
Por isso te espero. Te espero na angústia do meio termo entre a ausência e não-ausência, o estar e o não-estar, um mal-estar que tanto gosto e me atormenta... só não me deixe nessa dúvida se eu vou pra lá eu vou pra cá eu vou pra onde você vai, pra onde você for, só não me deixe. Não me deixe.
Então amanhã, sem falta, aqui na porta de casa, horário marcado, não aceito “não” como resposta, aceito um convite para jantar. Uma rosa no cabelo, um chamego, segredos à luz do coelinho padroeiro dos apaixonados distantes. Posso até, numa dessas e outras, admitir minha breguice, minha face careta, meus vários eus e meus e medos e desejos, o que escondo de todos e de mim mesma, eu. Posso tudo, desde que esteja lá.
Te mando essa carta semana que vem. Sem falta.

Isadora Barretto

4:45 PM


Anna Marzocchi, nome que vai fazer cosquinhas na sua língua. Pronuncia-se marzoqui, mas deixo por sua conta: um texto, dentro do breu da boca, tem gosto do que você quiser.

Isadora Tochtrop, também conhecida por Barretto, com dois T's. Recalcada por não ter um sobrenome satisfatório, roubou um alheio que a faz parecer escritora de best-seller russo. Orkut

Renata Bulcão, com "b", não "v". Já sofreu muitos comentários sacanas pelo sobrenome, embora este esteja ainda firme e forte em sua carteira de identidade e assinaturas como escritora de botequim. Orkut

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